Contexto histórico da capoeiragem em Belém do Pará
Capoeira em Belém do Pará : contexto histórico e sóciocultural

No século XVI, as capitanias hereditárias que dividiam o Brasil começaram a adotar umas das primeiras políticas integradas que se tem conhecimento sobre o período colonial brasileiro. Chamada de Diáspora Africana, esta iniciativa foi responsável pelo transporte de cerca de dois milhões de negros vindos de vários cantos da África trazidos como escravos para o trabalho nas lavouras de cana de açúcar (SOARES, 2005). Todavia, conforme o autor ora referido, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e Maranhão, inicialmente foram os estados que mais receberam esses escravos provindos da África.
Embora vindos de regiões diferentes deste continente com culturas, língua e etnias diferentes e até rivais, os negros africanos foram tratados pelos portugueses de modo indiscriminado, aglomerados dentro de um mesmo espaço físico. Por cerca de três meses, esses negros passavam por situações subumanas nos porões dos navios negreiros onde, por necessidade de sobrevivência, acabavam de algum modo se solidarizando e confraternizando. Segundo historiadores como Soares (2005), teria vindo daí os primeiros estímulos de união e entendimento entre as diversas tribos africanas; gerando uma mistura que, no caso do Brasil, teria tido uma grande importância e influência na formação de nossa cultura popular. Ainda, de acordo com Soares (2005), as influências culturais do negro sobre a formação cultural do povo brasileiro, neste sentido, não vieram de uma região específica da África. Foi exatamente desta mistura entre etnias, cultos e tradições de várias tribos africanas, que se deu, segundo este mesmo autor, a origem da riqueza cultural de nossa formação afrobrasileira. Porém, este sincretismo cultural não ocorreu homogeneamente, surgindo assim, junto com influências indígenas e europeias, uma grande diversidade cultural no Brasil resultado da variada combinação cultural ocorrida aliada a sua adaptação ao meio ambiente de cada local ou região. No que diz respeito à vinda de escravos africanos para a colônia
Grão-Pará e Maranhão, a história não foi diferente (BETTENDORFF, 1990). Os primeiros africanos trazidos para a Amazônia vieram, no entanto, pelas mãos dos ingleses, que no final do século XVI e começo do século XVII trouxeram negros para trabalhar na plantação de cana, as quais haviam sido montadas na costa do Macapá e na zona dos estreitos. Esta tentativa de colonização, porém, não foi bem sucedida, sendo apenas a partir do final do século XVII que se começa a importar negros em maiores quantidades vindos principalmente de Angola. Foi a partir deste momento, que se começou a perceber realmente que a mão-de-obra escrava indígena, até então largamente utilizada, apesar de ser mais barata era menos produtiva, tendo início assim as grandes imigrações escravos Tapanhuno para a Amazônia.Há uma legislação específica que se editou durante este período colonial. Produziu-se, através de Ordenação do Reino, abundante documentação, esta chamada de “lei pública”, a qual esteve embasada pelo código civil que delimitou os direitos e deveres do negro escravo e livre. Porém, existiam também outras leis particulares, dos senhores de engenho, fazendeiros ou até mesmo do cidadão comum proprietário de escravos, havendo, ainda, a legislação interna das missões e sabe-se do papel de juiz exercido pelos jesuítas neste período (AZEVEDO, 1930). Os jesuítas, em particular “[...] concordando com a prática da escravidão, acompanhavam as tropas e, como árbitros, decidiam da justiça dos presos” (AZEVEDO, 1930, p. 139). Estes artigos visavam legitimar limitações mercantis, comportamentais e religiosas de negros escravos e livres, zelando pela ordem e os bons costumes das colônias. Nas cidades de Belém e São Luis, durante a época da colônia, alguns negros e indígenas eram treinados pelos padres jesuítas para execução de trabalhos especializados para se tornarem úteis ao comércio e aos lavradores. Foram criados assim, carpinteiros, pedreiros, ferreiros, escultores, pintores, oficiais mecânicos, onde vários foram de grande ajuda nas construções de igrejas e prédios da época. Alguns pesquisadores como Leal (2002), acreditam que a capoeira tenha se desenvolvido dentre estes negros urbanos, pois toda documentação encontrada até então sobre capoeira neste período acontece principalmente no espaço urbano. Um fator importante, neste contexto, foi a permissão do lazer aos escravos ainda no período colonial.




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